Bateria

“Aprenda a tocar bateria rapidamente” – resultados imediatos

By on 31 de outubro de 2016

Meu editorial da revista Modern Drummer Brasil – outubro de 2016

Texto direcionado a quem acha que pode aprender a tocar bateria rapidamente.

A era do “vou te contar um segredo”

Olá, leitor! Este editorial tem como objetivo fazer uma reflexão sobre este momento em que vivemos uma desenfreada “corrida do ouro” para ganhar alunos on-line. Vemos cada vez mais posts nas redes sociais prometendo contar os “milagrosos segredos para tocar bem”.

Sim. De repente chegamos a uma época em que diversos gurus dos instrumentos musicais têm acesso a uma forma de consciência alienígena que incorporou todo o conhecimento musical da humanidade e resolveu passar, sob a forma de “segredo”, aos alunos dispostos a pagar um valor mensal para absorver tão desconhecido saber que talvez só os antigos ritmistas do Egito ou os bateristas descendentes dos essênios conhecem. Fico aqui pensando comigo. Será que Gene Krupa, Buddy Rich e Elvin Jones encontraram um anúncio no jornal oferecendo “segredos” e os contrataram? Será que Tony Williams e Billy Cobham baixaram um aplicativo em que todo o conhecimento baterístico da humanidade estivesse resumido em poucas lições em PDF? Ou talvez Neil Peart possa ter comprado apostilas milagrosas contando tudo o que ele deveria saber para criar as linhas de baterias (e as letras!) do Rush. Para quem será que o Vinnie Colaiuta telefonou a fim de descobrir os segredos para se tornar um dos maiores bateristas da humanidade? E Edison Machado, Milton Banana e Dom Um Romão? Onde será que conseguiram contratar um curso completo com algum desconhecido prometendo ensinar como entrar para a história da música brasileira?

Ah, ops. Mas esses são “das antigas”. Nessa época não existiam cursos on-line milagrosos prometendo ensinar tudo e mais um pouco. Vamos falar de caras um pouco mais atuais, então. Com certeza o Eloy Casagrande hoje toca no Sepultura simplesmente porque descobriu um método em que não é necessário estudar rudimentos para tocar bem. Max Kolesne certamente deve ter aprendido a tocar dois bumbos de forma rápida e potente lendo um tutorial grátis na internet. Não sei não, mas talvez o Cuca Teixeira tenha aprendido a tocar de tudo assinando um site onde prometeram que em 12 vezes sem juros ele poderia ser um dos grandes do mundo.

Vamos pensar um pouco? Por que os caras que tocam bem TOCAM BEM? Foi porque alguém prometeu a eles alguma fórmula milagrosa ou foi porque “apenas” se dedicaram pra cacete a desenvolver o seu play? Muitas horas por dia praticando, errando, acertando, errando de novo, acertando, levando bronca, apanhando, evoluindo, apanhando mais, perdendo trabalhos, ganhando trabalhos, ganhando aluno, perdendo aluno e assim por diante?

Confira a lista dos colunistas desta revista. Você acha que algum deles teve uma vida fácil em seu aprendizado na carreira? Algum deles realmente aprendeu “segredos” para chegar aonde chegou? O Edu Ribeiro ganhou seus Grammys porque alguém mostrou o “caminho certo para ganhar um Grammy”?

Não. Todos ralaram pacas e estão ralando muito ainda. Todos trabalham, estudam, sofrem, levam torta na cara, ganham elogios, reconhecimento (e Grammys também!) apenas porque amam o que fazem e se dedicam dia e noite para isso. Resumindo, duvide sempre de fórmulas milagrosas — seja em cursos pela internet ou fora dela. E dê sempre um voto de confiança a quem sabe o que está falando — seja em cursos pela internet ou fora dela. Desconfie de promessas fáceis. No fim, você só estará ajudando a alguém que entende muito de marketing pela internet a ganhar dinheiro mais fácil.

Entre “descobrir um segredo oculto desde a era paleozoica” e pagar suas contas, prefira pagar suas contas. E pague principalmente a conta de sua consciência. Estude. Procure um curso digno — on-line ou off-line — para te acompanhar. E, principalmente, seja feliz!

Vlad Rocha

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Vlad Rocha
São Paulo/SP - Vila Mariana

Vlad Rocha é baterista profissional há 20 anos. Já estudou com músicos renomados no cenário (os bateristas Alaor Neves, Christiano Rocha e a percussionista sinfônica Elizabeth Del Grande, entre outros) e já tocou/gravou com Ludov, Cuelho de Alice (projeto paralelo de Paulo de Carvalho das Velhas Virgens), Peninha, Faiska, Michel Leme, Adriana Godoy, Cláudio Machado, Luciana Pires, Danny Calixto, Gil Duarte, Vivi Keller, Marcos Davi, Grupo de Percussão da Escola Municipal de Música de São Paulo, entre outros. Gravou trilhas sonoras para as emissoras de televisão Rede Globo, Record, SBT e Bandeirantes. Foi bolsista do Festival de Inverno de Campos do Jordão em 1998, e em 2013 realizou uma turnê de workshops na Europa junto com o baterista Christiano Rocha. Foi editor, consultor técnico e colunista da revista Modern Drummer Brasil entre 2005 e 2017, onde efetuou testes de equipamentos, desenvolveu colunas de estudo voltadas a todos os níveis de experiência, realizou entrevistas com grandes nomes da bateria brasileira e mundial (Neil Peart, Simon Phillips, Carlos Bala, Edu Ribeiro, Zé Eduardo Nazario, Serginho Herval, Dave Lombardo entre muitos outros), entre outras funções. Já lecionou na Academia de Música Granja Viana, Escola Sons, Escola Musicamania e Bateras Beat Vila Mariana, além de dar aulas particulares em São Paulo.